Thursday, April 03, 2008

Rídiculo é meter esta tranca à porta

Detesto voar. Os aeroportos são para mim antros em que me esperam momentos péssimos de sofrimento. E não estou a falar de pânico de voar, estou a falar da segurança nos aeroportos. Podia juntar a entrada no escritório, na cantina da instituição ou em qualquer outro sítio em que me queiram apalpar para encontrar aquela bombinha. Deo gratias que ainda nunca me deu para largar no momento de tanto receio uma bombinha de mau cheiro.
Digo que tenho medo de voar, mas eu tenho medo é de quem voa. De quem voa demasiado alto e lá no seu poleiro manda e comanda cá para baixo. De tipos sem licença para pilotar que dão bitaites sobre o que fazer para segurar aviões Jumbo carregados de chumbo. Acho que anda meio Mundo a tentar inibir outro meio Mundo.

O que mais chocou o Mundo no momento dos ataques terroristas do 11 de Setembro e posteriores foi a barbaridade cometida, o calculismo e perversidade que resultaram em tão graves atentados à vida humana de pessoas comuns que seguiam o seu mero quotidiano.
No rescaldo destes ataques muitas medidas de segurança foram tomadas pelos governantes, nomeadamente americanos e europeus. Estas medidas supostamente repõem a normalidade e tranquilidade ao quotidiano do cidadão. Houve quem lamentasse que pecaram por tardias. Lamento, não podemos hesitar em afirmar que, não apenas foram tardias, como são nocivas e perversas, inclusivamente atentados contra a liberdade que o Mundo Ocidental embandeira como sua conquista perene.

Os imperativos de segurança que se dirimiram no rescaldo dos atentados de Nova Iorque, Londres ou Madrid não pecam por excessivos nos paradigmas de segurança que tentam criar, pecam pelo simples facto de tentarem criá-los e sobrepô-los à nossa liberdade. Esta aberração deve-se a um certo histerismo criado pela necessidade de proteger meio mundo do outro meio mundo. Pasme-se quando verificamos que as nossas liberdades são tão restringidas, mas acrescente-se que estas restrições não são exageradas para conter o perigo. O que é exagerado é pensar que elas são o único meio eficaz, o método infalível para restabelecer a normalidade.
O motivo por detrás de todas as restrições e dificuldades geradas para qualquer passageiro aéreo vai contra todos os valores que levam à afirmação de espaços de liberdade, como convincentemente se proclamam as nações modernas e civilizadas do Ocidente.

A História lembra que meio Mundo tem tentado dominar, por via da inibição de outro meio Mundo. Os romanos tinham conceitos de Bárbaros para povos muito distintos. Considerando o poderio do Império, temo que esses conceitos foram enviesados por perspectivas de uma maioria que se tomava como superior, como o prova a tentativa de latinizar os povos, impor a sua língua e os seus costumes. As Cruzadas também foram um método para evangelizar os povos do além-mar, impor uma religião e uma civilização que nela se ancorava. Durante os Descobrimentos o tráfico de escravos era considerado como um comércio legítimo e lícito. Tomadas à luz do pensamento actual, não seriam estes passos tomados como negações graves de humanidade, porque atentatórios dos valores e autodeterminação dos povos e nações? Não reflectem também choques civilizacionais?
Estamos perante uma profunda crise de valores, uma perspectiva errada e mal olhada pelos dois lados, digo mesmo zarolha, dos factos. A dignidade humana não comporta ataques como os perpetrados por terroristas rancorosos. Porém, a aberração que é o zelo imposto após os mesmos restringe-nos a todos, não apenas aos potenciais terroristas. E é por isso que é ineficaz. Porque paga o justo pelo pecador, e porque não reflecte a boa vontade em conseguir obter concórdia e paz verídicas. Enquanto não encontrarmos uma plataforma de diálogo comum nunca vamos conseguir deixar os temores fora dos aeroportos. A hipocrisia é pensar que como inibimos no aeroporto, os terroristas não conseguem ser mais perversos ainda e tentam atacar por outra via. Londres e Madrid comprovam-no. E muitas vias continuam por explorar. Cada uma que se descobre é certamente controlada para tentar inibir o terror. A perversidade deste método é que os eixos malignos não se contentam com este estado das coisas, costumam reivindicar com ainda mais intolerância contra tudo e contra todos. Ao mesmo tempo, parece que tanta inibição tem fechado as vias da concertação e a obtenção da única prevenção genuína, porque numa guerra aberta contra todos os que estejam contra, todos pagam com a sua liberdade. Não é irónico?

3 comments:

Manzas said...

Grande LMG, tens jeito pra a coisa!! Boas reflexões. Já estava a ver que mais ninguém postava...
Um Grande Abraço

Manzas said...

Partilho do teu ponto de vista, em que uma "plataforma de diálogo comum" será necessária... Visão zarolha... LOL. Nem mais!!

Lemon Curd said...

Atão? isto são as influencias do chefe?
Já se percebe o que dizes rapaz (pelo menos nos 2 primeiros parágrafos, pois é tarde e não me apetece ler tanto, sorry)

beijos