Thursday, June 18, 2009

A mula da cooperativa

Em sede de integração europeia, muito se menciona a falta de uma só voz, e para dotar a UE dessa voz, defende-se também a criação de um exército digno. José Cutileiro escreveu na sua crónica do Expresso do fim de semana passado que "Os europeus criaram na União uma espécie de cooperativa fortíssima que promove os seus interesses morais e materiais e é insubstituível. [_] Mas em tempo de guerra - e a guerra virá um dia - não é defensável porque os corações nacionais se aninharam no pacifismo. Salvo honrosas excepções os orçamentos militares andam há anos abaixo do mínimo necessário à segurança das nações."
Pode deduzir-se desta afirmação que a fragilidade militar da UE continua a ser um obstáculo na sua construção, deixa-a dependente dos EUA e da OTAN e o processo de integração será sempre ameaçado enquanto a União como um todo não admitir que não é por estar militarizada que é promotora de guerra nem que emite nenhum sinal de verdadeira federação de estados. As premissas conformadoras deste olhar recorrente são inevitáveis, mas não são desculpa para impedir que a UE se equipe deste garante da paz e respeito pela soberania dos seus próprios Estados (pelo menos para já). Enquanto isto não acontecer, o modelo europeu continuará a ser coxo... As coisas arrastar-se-ão, porque como diz Cutileiro (por outras palavras) na UE temos muitas mulas teimosas, que não conseguem seguir outro caminho. E como temos que contar com todos...

Wednesday, June 17, 2009



Pensamentos da noite, em tempos de crise:

- Afinal quanto é que nós recebemos se um dia ficarmos sem emprego?
- Sem emprego?!
- Sim, disseram-me que só temos direito a 60% do salário...
- Mas tu estás com medo de perder o teu emprego agora?
- Não, mas já estou a pensar na reforma !

Passadas que foram 2 ou 3 horas...
- Vamos lá voltar a coisas sérias...
- Coisas sérias agora?
- Sim, ainda não esclarecemos isso da reforma! Ainda estou cá preocupada.

E que pensamos nós de voltar para Portugal?
- Às vezes tenho cá umas saudades...
- Eu sei lá, devia voltar agora e pronto!
- Pois, mas à noite falas com os amigos e esqueces logo o que decidiste na praia à tarde!

Wednesday, June 10, 2009

As pérolas de MFL

Na campanha para o PE, o agitar das águas foi tão ténue, que entre almoços e jantares, alguém se esqueceu de partir para um verdadeiro combate pelo lugar do país na UE.

Quando Vital Moreira foi mostrar empresas como a Aquinos, para celebrar a existência de casos de sucesso no nosso país, eu quase caía para o lado. Será que eu fui a única pessoa que se lembrou que este caso pode ser uma celebração da castração do nosso tecido empresarial?! Especulo, mas vejamos este caso: a IKEA celebra tendencialmente contratos leoninos para produção de mobiliário de média e baixa gama. As reduções das margens de lucro poderão prevenir a aplicação de fundos em investigação & desenvolvimento. Por fim, mantem-se o emprego, mas torna-se esse trabalho muito volátil porque em época de concorrência com potências produtivas semi-desprovidas de escrúpulos, arrisca-se o empresário português a perder a sua capacidade de atracção ou retenção da produção a médio e longo prazo, contabilizados custos, por exemplo, obrigações de regalias sociais, ou imposições industriais de segurança do trabalho e do produto que oneram inexoravelmente, ainda que sejam conquistas modernas que devemos acarinhar. Celebrou-se uma potencial perda que só serve por agora! Os recursos a quem se devia conferir maior capacidade vão perder-se se não os dotarmos de capacidades técnicas acrescidas. Sempre o dilema de obter o know-how!

Com obras faraónicas não se aumenta necessariamente a competitividade de um país. Vias de comunicação são equipamentos, que ou são necessários, ou então são despesismo. Já educação, nos dias do paradigma mundial do conhecimento e mais-valia técnica, poderiam colocar a nossa produção e mão de obra em patamares diferentes. E isso sim, são condições essenciais para promovermos a nossa economia, que temos vindo a hipotecar. Os partidos que continuarem a ignorar essa realidade ou padecem de cegueira crónica (não se pode dizer autista), ou merecem que o eleitor lhes vede o caminho!

Em Portugal reina uma confusão ideológica que subsiste não apenas por falta de esclarecimento do eleitorado, mas também por adequação deste à desinformação. Muito resulta da acção partidária, mas o eleitorado devia reagir de maneira distinta na urna. Este foi um jogo perigoso, especialmente para o PSD, que vinha a fazer uma corrida longa em busca da credibilidade junto do eleitorado, e agora terá que mostrar uma endurance sem prazo para abrandar. Mas as pérolas de Manuela, apesar de mais relevantes, ainda não reluzem como diamantes aos olhos do povo...

A oposição saíu, não reforçada, mas com argumentos reforçados. E isso conta tudo, especialmente para o PSD e o PP. O PSD vê Manuela Ferreira Leite com outros olhos, e o PP afinal não morreu. Já a viragem à esquerda, só espantaria se assim não fosse. Então onde ficava a crise como arma eleitoral? Mesmo assim, o grupo PPE ganhou muito do mapa europeu...

Friday, June 05, 2009

O bicho carpinteiro

Comparado que está Vital Moreira a Geppeto, o carpinteiro pai do Pinóquio, aproveito a deixa para acrescentar que na fábula que me parece a atitude do carpinteiro Vital há outros carpinteiros: os bichos-carpinteiros. Com efeito, Vital Moreira apresentou-se em campanha como um candidato disposto a obrar em madeira carunchosa! Daí que o pretexto da caixa de pandora o tenha feito defender a obrinha... Ou qualquer que tenha sido a encomenda.

Porém, o que me parece que saíu melhor que a encomenda nesta campanha, foi a tarefa de que se encarregaram Mário Soares e Ana Gomes. Para denegrirem Durão Barroso, estas duas figuras de cúpula do PS nunca se põem de fora. Do que se esquecem é que ao fazê-lo andam sempre a maltratar o nome do país! Pode ser um argumento duro de engolir, mas não nos esqueçamos que termos um português colocado no lugar de Presidente da CE é por si só uma mais-valia para todos os portugueses. Somos vistos como intelectualmente capazes e, a despeito de Mário Soares, Durão é considerado como políticamente hábil. Sobram dúvidas sobre se Durão Barroso se terá vergado aos interesses dos grandes países no Conselho. Temos que distinguir que não é o mesmo deixar morrer um assunto porque ele é inconveniente a um qualquer país e outra coisa é colocar de lado uma hipótese que sabemos antecipar que não passará facilmente ou de todo! E vêm juntar-se a figuras como Poul Nyroup Rasmussen para quê? Que dividendos colherão da ascensão desta figura tão trauliteira quanto exagerada nos seus ataques incessantes a Barroso? Pior desde que um outro Rasmussen obteve um belo lugar num cargo de prestígio como o de Secretário-Geral da OTAN. Temo que estejam por sarar feridas no orgulho, como o caso de Mário Soares que queria acima de ex-Presidente de um país, ter sido também um Presidente na História da Europa.
A tentativa de colarmos a reeleição de Barroso às europeias, é perigosamente uma tentativa de alteração dos paradigmas de funcionamento da mecânica política e dos processos de nomeação da Comissão Europeia, com uma maior intervenção do PE. Caberá mesmo ao PE decidir quem nomeia para o cargo? Então e os tratados em vigor? E as preocupações democráticas, que foram tão grandes quando se recusou a Constituição e Lisboa? Estou a ver alguma conveniência pessoalizada em recusar a identidade de razão neste caso.

A abstenção é também outro caruncho. Aflige-me que o eleitorado não veja que votar não é dever de cidadania, é poder de democracia! Por questões de cálculo da proporcionalidade, a abstenção, a votação em branco ou nula dão força aos partidos que obtiverem mais votos expressos no sufrágio. E isso nunca será o desejo de um eleitor despeitado e desafectado do panorama do sufrágio em causa. Por outro lado, se estivermos contra os partidos, os projectos que apresentam, as listas que propõem, então temos que nos manifestar, e manifestar sem remediar pressupõe um voto. Em branco ou nulo, mas votar! Se em lugar de termos acima de 80% de abstenção tivéssemos cerca de 40% de votos em branco ou até nulos, acreditem que os partidos iam obrigar-se a rever rapidamente tudo o que os relaciona com o eleitorado! A falta de legitimidade num caso e noutro é completamente diferente. Não há tanto lugar para dúvida de que as pessoas não vieram mas concordavam! A indiferença não é a mesma coisa que o repúdio. O cidadão responsável enquanto eleitor pode repudiar, enquanto turista é um indiferente.