Friday, June 05, 2009

O bicho carpinteiro

Comparado que está Vital Moreira a Geppeto, o carpinteiro pai do Pinóquio, aproveito a deixa para acrescentar que na fábula que me parece a atitude do carpinteiro Vital há outros carpinteiros: os bichos-carpinteiros. Com efeito, Vital Moreira apresentou-se em campanha como um candidato disposto a obrar em madeira carunchosa! Daí que o pretexto da caixa de pandora o tenha feito defender a obrinha... Ou qualquer que tenha sido a encomenda.

Porém, o que me parece que saíu melhor que a encomenda nesta campanha, foi a tarefa de que se encarregaram Mário Soares e Ana Gomes. Para denegrirem Durão Barroso, estas duas figuras de cúpula do PS nunca se põem de fora. Do que se esquecem é que ao fazê-lo andam sempre a maltratar o nome do país! Pode ser um argumento duro de engolir, mas não nos esqueçamos que termos um português colocado no lugar de Presidente da CE é por si só uma mais-valia para todos os portugueses. Somos vistos como intelectualmente capazes e, a despeito de Mário Soares, Durão é considerado como políticamente hábil. Sobram dúvidas sobre se Durão Barroso se terá vergado aos interesses dos grandes países no Conselho. Temos que distinguir que não é o mesmo deixar morrer um assunto porque ele é inconveniente a um qualquer país e outra coisa é colocar de lado uma hipótese que sabemos antecipar que não passará facilmente ou de todo! E vêm juntar-se a figuras como Poul Nyroup Rasmussen para quê? Que dividendos colherão da ascensão desta figura tão trauliteira quanto exagerada nos seus ataques incessantes a Barroso? Pior desde que um outro Rasmussen obteve um belo lugar num cargo de prestígio como o de Secretário-Geral da OTAN. Temo que estejam por sarar feridas no orgulho, como o caso de Mário Soares que queria acima de ex-Presidente de um país, ter sido também um Presidente na História da Europa.
A tentativa de colarmos a reeleição de Barroso às europeias, é perigosamente uma tentativa de alteração dos paradigmas de funcionamento da mecânica política e dos processos de nomeação da Comissão Europeia, com uma maior intervenção do PE. Caberá mesmo ao PE decidir quem nomeia para o cargo? Então e os tratados em vigor? E as preocupações democráticas, que foram tão grandes quando se recusou a Constituição e Lisboa? Estou a ver alguma conveniência pessoalizada em recusar a identidade de razão neste caso.

A abstenção é também outro caruncho. Aflige-me que o eleitorado não veja que votar não é dever de cidadania, é poder de democracia! Por questões de cálculo da proporcionalidade, a abstenção, a votação em branco ou nula dão força aos partidos que obtiverem mais votos expressos no sufrágio. E isso nunca será o desejo de um eleitor despeitado e desafectado do panorama do sufrágio em causa. Por outro lado, se estivermos contra os partidos, os projectos que apresentam, as listas que propõem, então temos que nos manifestar, e manifestar sem remediar pressupõe um voto. Em branco ou nulo, mas votar! Se em lugar de termos acima de 80% de abstenção tivéssemos cerca de 40% de votos em branco ou até nulos, acreditem que os partidos iam obrigar-se a rever rapidamente tudo o que os relaciona com o eleitorado! A falta de legitimidade num caso e noutro é completamente diferente. Não há tanto lugar para dúvida de que as pessoas não vieram mas concordavam! A indiferença não é a mesma coisa que o repúdio. O cidadão responsável enquanto eleitor pode repudiar, enquanto turista é um indiferente.

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