Diz o Sr. Eurodeputado Miguel Portas na sua entrevista ao Público, publicada hoje, que "O grau de homogeneidade entre PPE (onde se inclui o PSD) e PSE (onde se inclui o PS) é maior do que o da esquerda, porque a Europa é governada em regime de bloco central." Pena que em resposta à pergunta seguinte tenha que dar o braço a torcer e admita publicamente que "Em Portugal PCP e BE votam da mesma maneira em 90 por cento dos assuntos (...) Em Bruxelas é o mesmo, talvez a percentagem seja de 95 por cento". Apesar de afirmar que isto não lhe causa qualquer desconforto, pelo menos a mim causa-me. Então o que distingue verdadeiramente a representação feita por BE e PCP em Bruxelas e Estrasburgo, se no fim o deputado votará da mesma maneira, e pior, fica integrado, leia-se diluído, num grupo europeu que é o mesmo e é por si manifestamente pequeno? Se interpreto correctamente as suas palavras, e tendo em conta que por meio fica ainda a condenação da postura de Vital Moreira, porque este defende que há diferenças enormes, e pelo contrário, segundo Portas os grupos europeus do PSD e PS se pautam pela lógica de compromisso no Plenário de Estrasburgo, a declaração mediata para o eleitorado é que quem quiser votar em ruptura com o estado actual das coisas, só pode mesmo votar na esquerda. E como o BE e o PCP se confundem, podem votar no BE, que ainda por cima não traz para a Europa tudo o que é assunto interno, mesmo fora de âmbito. Sub-repticiamente transmite-se esta ideia, que não vai de encontro aos muitos exemplos em que o PPE e o PSE se aliam aos liberais da ALDE para obterem o que querem, esses sim no pêndulo por essa via. E é também um logro, porque, é menos prejudicial qualquer postura que não seja a da PermanenteContestaçãoPortuguesa, mas naquela família europeia, este é o modus faciendi, e o BE afinal também é eurocéptico. Ora, em rigor, só quem é do contra é que pode votar sem compromisso, numa casa que tem mais de 750 pessoas a decidir em conjunto. A lógica do verdadeiro à esquerda e à direita perde-se outra vez, porque em regra quem vota com a esquerda contra muito do que o chamado Bloco Central propõe, é também a extrema direita. E a partir de Julho o grupo dos conservadores ingleses desafectos do PPE...
Por outro lado, esta entrevista demonstra uma verdadeira vontade política, e a necessidade de chamar a si o eleitorado cabe aqui muito legitimamente. Em contraste, deixo uma última palavra sobre a celeuma que Vital Moreira quase criava quando disse que tinha havido saneamento no grupo do PSD. Questiono se sempre que alguém não seja reconduzido num cargo, ainda por cima, político, estamos perante um saneamento? Desta vez consubstancia-se um tique, uma maneira tradicional da pessoa de olhar para as coisas, mas não vou adjectivar, porque este comentário levar-nos-ia a tempos em torno de 1974, por duas razões. Foi simultaneamente o tempo dos saneamentos e o auge dos exacerbos estalinistas. Afinal adjectivei. Mas junto outra nota: a nomeação para certos cargos, independentemente da qualidade e desempenho dos seus titulares pode ser uma prenda envenenada e significar até que não servem para muito mais. E sabemos que bons eurodeputados podem aspirar a mais, como serem Presidente da Câmara, só não sabemos é se isso é mesmo uma tentativa de fraude, ao eleitorado ou à lei das quotas. Fica por qualificar.
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