Sexta-feira 13, resultados do referendo do TLx na Irlanda foi um grande dia para a Europa. Só que não foi um dia em grande, apesar de termos que tirar uma lição de humildade. Nas circunstâncias destas votações de grande abstenção, quando há indecisos que são decisivos a regra é que quem vai votar vota do contra. Valorizou-se a ignorância.
Foi celebrada, mas não é famosa, a sugestão arrogante expulsem-se os irlandeses. Então, expulsem-se os franceses e os holandeses. Eles mataram a "constituição". A julgar pelos recadinhos o Tratado é para andar para a frente, com ou sem Irlanda, com ou sem claúsulas. Tampouco deveria ser isto o essencial. E não choremos pelo trabalho perdido. Chorem porque não sabem para quem trabalham!
Os extremos voltam a tocar-se: David Cameron, Ilda Figueiredo, Manuel Monteiro, Miguel Portas, Le Pen... todos vêm congratular-se à sua maneira. Portanto, para eles um atraso num processo inequívoco e de dividendos inegáveis é uma boa nova. Pois para eles aqui fica um enorme manguito mental!!!
1) o "Não" ganhou porque foi mais aguerrido, a preparação foi feita com olhos na batalha, e não do ponto de vista de vencedores que pouco teriam que defender do seu reduto;
2) quando o "Sim" começou a perder terreno em ritmo acelerado vieram em socorro alguns desastres - Durão Barroso com ultimatos, Mandelson e Cowen prometeram o impossível na OMC em cenários impróprios, Kouchner assumiu-se como um belíssimo embaixador do chauvinismo;
3) os agricultores disseram que mudavam de ideia, mas a situação estava imparável no sentido errado, e somam-se os contributos financeiros sem limites de alguns loucos que querem que as coisas fiquem como estão (diz-se que até os Republicanos norte-americanos contribuíram para a campanha, presumo que o silêncio sobre esta matéria vale de consentimento...);
4) a campanha para o referendo na Irlanda perdeu ainda pela falta de diálogo e ausência de preparação no terreno que outras experiências com o mesmo fim teriam garantido. Não houve a sinergia do erro prévio, e isso foi o que mais falta fez para poder emendar a mão desta campanha. Acrescente-se que vimos e ouvimos coisas que mais pareciam profecias do fim do mundo tal como o conhecemos e adoramos (aborto e eugenia, serviço militar obrigatório europeu, adeus à cadeira na Comissão...).
O que deveriam estar a ponderar os decisores e eurocratas é a carência subjacente a este "Não" e que lhes tirou o sono nos prévios referendos, e teve o poder de destruír uma agenda bem arrumadinha mais do que várias vezes para vacinar uma crise institucional auto-induzida! Nem ousem empurrar ninguém para o canto do castigo, o maior castigo foi este: a democracia exerceu-se. Um amigo meu disse-me na 6ªfeira tentaram sequestrar a Europa.. pois então, agora estamos reféns! Não há volta a dar-lhe: o "Não" manifestou-se contra a ausência de diálogo, a falta absurda e arrepiante de informação, mas não é de agora. À crise institucional responde o povo com uma crise de valores e de consciência. Não é simples, é mais complicado descodificar tudo em mensagem inteligível para os governados da Europa do que reduzir umas quantas exigências e opt-outs a texto pronto a aprovar por quem não o lê e na fogueira das vaidades não quer ficar fora da fotografia. Mas querem crer que o povo é néscio e que é melhor mantê-lo à parte da Europa? E esperem pelas eleições para o PE. A Irlanda votou contra porque não foi convencida a votar em nada. E em terreno virgem de informação venceu a desinformação.
p.s.: escrevi este post no dia 14 de Junho, corrigi e publiquei no dia 16. Outros pontos nesta discussão merecem mais um comentário que publicarei noutro post. Por favor leiam-nos em conjunto!
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